O primeiro debate presidencial de 2026 reflete de forma involuntária o que tem sido captado pelas pesquisas mais recentes de agosto: poucos eleitores admitem a possibilidade de mudar de voto até outubro, variando de aproximadamente um terço a um quinto do eleitorado, a depender do instituto e da data do levantamento.
Assim, fica mais confortável para os dois nomes com melhor desempenho nos levantamentos – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), nome da oposição com maior intenção de voto – tomarem a decisão de faltar ao debate na Band neste domingo (23).
Da mesma forma, até quem não tinha convite obrigatório para participar, como o candidato do Novo, Romeu Zema, pode abrir mão do púlpito ao lado de concorrentes em patamar equivalente nas pesquisas, como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
Nas rodadas mais recentes das pesquisas Meio/Ideia (de 31 de julho a 3 de agosto), Genial/Quaest (entre 10 e 13 de agosto) e BTG/Nexus (de 14 a 16 de agosto), o nível de decisão de voto captado foi de 66%, 69% e 78%, respectivamente, ante 34%, 30% e 20% de eleitores que admitem que podem mudar a escolha até outubro.
Um outro padrão que se repete nos levantamentos é que Lula e Flávio têm as bases de eleitores mais convictos (86% e 82%, respectivamente, pela BTG/Nexus), o que reduz o risco de perdas com o no-show no debate deste domingo. Quem faz aposta mais alta é Zema, que apresenta maior volatilidade no eleitorado, com segunda opção majoritária a favor do candidato do PL.
A gestão de danos com a falta nos debates
Não é de hoje que candidatos bem colocados nas pesquisas, como hoje é o caso de Lula e Flávio Bolsonaro, optam por faltar em debates e escolhem participar apenas daqueles que consideram mais estratégicos, apesar de os encontros serem majoritariamente bem avaliados pelo eleitorado – pesquisa Meio/Ideia de agosto, por exemplo, mostra que 63% dos entrevistados acham que todos os candidatos convidados deveriam comparecer.
O histórico, no entanto, não permite uma conclusão definitiva sobre lucros e prejuízos políticos quando um candidato deixa um púlpito com seu nome vazio. Os brasileiros se acostumaram a essa cena desde a primeira eleição direta após a ditadura, em 1989. Naquele ano, o líder e futuro eleito, Fernando Collor de Mello, só foi aos confrontos ao vivo no segundo turno, contra o então estreante Lula.
Em 1998, nem sequer houve púlpito vazio: o favoritismo do presidente Fernando Henrique Cardoso era tal que o tucano, ao avisar que não participaria dos encontros, levou os próprios veículos a abrirem mão dos debates.
Em estratégia análoga, oito anos depois foi a vez de Lula faltar aos confrontos de primeiro turno, como estratégia para evitar deslizes em meio ao escândalo dos “aloprados” – apelido dado pelo próprio presidente ao comentar o caso de petistas que teriam negociado um falso dossiê de acusações contra políticos do PSDB.
Nesse caso, porém, houve quem visse na ausência de Lula um fator relevante o suficiente para a vitória escapar no primeiro turno: o petista recebeu 48,61% dos votos válidos e precisou enfrentar o então adversário Geraldo Alckmin, hoje seu vice-presidente, em nova rodada.
Mais recentemente, em 2018, a ausência de Jair Bolsonaro nos debates realizados após a facada de que foi vítima, em Juiz de Fora (MG), teria tido outro efeito, na avaliação da época: o atentado levou os adversários a prestarem solidariedade, aumentando a consternação diante daquela violência, e o candidato que liderava as pesquisas consolidou o caminho até a vitória eleitoral no segundo turno.
Em 2026, a ausência de metade dos seis candidatos convidados pela Band surpreende não só pela proporção, mas pela evidência de que os candidatos do PT e do PL reproduzem um duopólio político semelhante ao visto em 2022, ainda que hoje existam mais nomes dispostos a tentar romper a polarização do que quatro anos atrás.
Para Caiado, Renan e Cury, é a chance de abrirem alguma trilha em uma floresta.
CNN Brasil